domingo, 20 de janeiro de 2013




UMA CARTA AO ARISTIDES

Hoje eu me lembrei de seu chapéu torto.
De seu sorriso morto.
De sua fala mansa.
De seu pé no chão.
Caloso.
Horroroso.
Lembrei de você de enxada na mão.
Lembrei de sua mão.
Enorme mão de um trabalhador.
Um homem que enlouqueceu de amor.
Aristides.
Havia alguma coisa que me tocava quando nos seus olhos eu olhava.
Eu lia lá no fundo que a ferida de sua alma sempre e sempre a sangrar continuava.
De uma coisa eu estava certa. Você nos amava.
Lembro-me de você de cócoras a trabalhar. As espigas de milho a descascar.
Os grãos da espiga lentamente você costumava retirar.  
E os sabugos numa pilha você ia juntar.
As lembranças nós podemos sempre guardar.
Guardo a lembrança de um negro bom, que vivia constantemente conosco.
Que permanecia tanto tempo quieto.
Mas que marcava presença.

SONIA DELSIN

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