UMA CARTA AO ARISTIDES
Hoje eu me lembrei de seu
chapéu torto.
De seu sorriso morto.
De sua fala mansa.
De seu pé no chão.
Caloso.
Horroroso.
Lembrei de você de enxada na
mão.
Lembrei de sua mão.
Enorme mão de um trabalhador.
Um homem que enlouqueceu de
amor.
Aristides.
Havia alguma coisa que me
tocava quando nos seus olhos eu olhava.
Eu lia lá no fundo que a
ferida de sua alma sempre e sempre a sangrar continuava.
De uma coisa eu estava certa.
Você nos amava.
Lembro-me de você de cócoras a
trabalhar. As espigas de milho a descascar.
Os grãos da espiga lentamente
você costumava retirar.
E os sabugos numa pilha você
ia juntar.
As lembranças nós podemos
sempre guardar.
Guardo a lembrança de um
negro bom, que vivia constantemente conosco.
Que permanecia tanto tempo
quieto.
Mas que marcava presença.
SONIA DELSIN

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